Criança Interior... parte II

Ainda falando dela, me veio à memória outro episódio.
Este um pouco mais marcante porque é um reflexo da criança, tendo em vista que já tinha uns 10 anos.
Ir para a escola sempre foi um misto de alegria e sofrimento. Eu amava aquele ambiente e, ao mesmo tempo, morria de medo. Eu simplesmente não me encaixava. As poucas vezes em que tentei fazer parte do todo, do conjunto, me frustrei. Não conseguia ser a legal, ter as amizades mais legais, ser a descolada. 
Ficava sempre nos arredores das rodinhas, ria das brincadeiras, mas nunca tinha algo interessante para contar que pudesse chamar a atenção de alguém.
Tinha um sonho de fazer o pré primário, com todos aqueles lápis e canetinhas coloridas. 
Mas não pude.
Então entrei no primeiro ano escolar com 07 anos e com 10 estava na quarta série.
Todo início de ano tinha a escolha do "Chefe" de classe. Que era aquele aluno destacado que tinha bom comportamento e um bom relacionamento com os demais alunos. Tinha que ter boas notas porque na verdade seria o representante da sala em reuniões, conselhos e demais atividades que a diretoria poderia propor, enfim era o top das galáxias.
Para a escolha era feito uma eleição bem democrática, onde os alunos escreviam o nome do colega escolhido e depositavam numa urna. O que obtivesse mais votos era automaticamente eleito.
Pois bem.  No meu íntimo como eu queria ser a escolhida!! Sobretudo porque seria minha oportunidade de ser destaque, de chamar a atenção, de ser vista, percebida!!
Mas, o "não" veio. Aquele mesmo "não" da cadeirinha. 
Aquele mesmo "Não" que me mostrava que eu queria, mas não poderia ter.
E o que fiz?
Na hora de escrever o nome na cédula...Votei no outro Zé Mané que, por pior que fosse, seria melhor que eu.
E adivinhem o que aconteceu? Pasmem. 
Perdi por um voto. Ou seja, pelo meu voto. Perdi para mim mesma.
Sim. 
Eu não, mas outros acreditaram em mim. Outros confiaram em mim. Menos eu.

Estas são lembranças bobas mas que, vez ou outra me veem à memória. E porque?  Porque foram carregadas de emoções negativas . 


E a última e pior delas, foi quando, na adolescência eu gostava de um garoto. Essas coisas de primeiro amor. Esperei pela oportunidade de estar com ele por cerca de uns cinco anos (simmm,  cinco anos!!) e, quando o garoto me seguiu um dia e me ofereceu uma carona, eu gentilmente recusei. 
Olha a cadeirinha aí de novo.
E essa história gente, se repetiu por muitos e muitos e muitos anos. 

Mas enfim, chegou um dia em que resolvi procurar essa menininha e, ao invés de lhe dar uma surra merecida, calmamente lhe disse: Onde está você garotinha? Venha aqui. Saia de trás dessa porta. Você não fez nada de errado. Você é só uma criança. Está tudo bem. Olha pra mim. Eu amo você, com todas as imperfeições, rejeições e dificuldades que você tem.
Vem comigo que agora eu vou te conduzir. Esse fardo não é mais seu...

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